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Instituidor

MANUEL CARGALEIRO

Manuel Alves Cargaleiro nasceu em 16 de março de 1927 no concelho de Vila Velha de Ródão, distrito de Castelo Branco, Portugal. Em 1945, Manuel Cargaleiro inicia as primeiras experiências de modelação de barro, na olaria de José Trindade, no Monte da Caparica. Realizou os seus estudos em Lisboa onde frequentou a Escola Superior de Belas Artes para se dedicar às Artes Plásticas.

Em 1949, expôs pela primeira vez na "Primeira Exposição Anual de Cerâmica", na Sala de Exposições do "Secretariado Nacional da Informação. Cultura Popular e Turismo" (SNI), no Palácio Foz, em Lisboa. Em 1950 organiza, com a Comissão Municipal de Turismo do Concelho de Almada, o "I Salão de Artes Plásticas da Caparica", em Almada. Em 1951 participa na "Segunda Exposição de Cerâmica Moderna", onde obtém uma menção honrosa. Em 1952 tem a sua primeira exposição individual, realizada na Sala de Exposições do SNI, com texto de Jorge Barradas. Nesse mesmo ano participa na "Terceira Exposição de Cerâmica Moderna", onde obtém uma menção honrosa, e na exposição coletiva "Mostruário da Arte e da Vida Metropolitana", no âmbito das "Comemorações do IV Centenário da Morte de São Francisco Xavier", organizado pela "Agência Geral do Ultramar", em Goa. A sua primeira formação como ceramista valeu-lhe a incursão no mundo então muito pequeno das artes portuguesas, de que viria a partir para procurar horizontes mais abertos.

Em 1953 expõe pintura pela primeira vez no "Salão da Jovem Pintura", na "Galeria de Março" em Lisboa, onde em fevereiro de 1954 apresenta a exposição individual "Cerâmicas de Manuel Cargaleiro", com texto de Diogo de Macedo, representando um marco importante para o reconhecimento do seu trabalho no mundo das artes. Nesse mesmo ano inicia a sua atividade com professor de Cerâmica, que mantém por 4 anos, na "Escola de Artes Decorativas António Arroio", em Lisboa. É igualmente neste ano que realiza a sua primeira viagem a Paris e conhece Maria Helena Vieira da Silva, Arpad Szènes e Roger Bissière.

Em 1955, dirige os trabalhos de passagem para cerâmica das estações da Via Sacra do Santuário de Nossa Senhora de Fátima, da autoria de Lino António. Nesse mesmo ano, participa na exposição coletiva "Fifth International Exhibition of Ceramic Art", no "Kiln Club of Washington", no "I Festival International de Céramique", em Cannes. Participa, também, na exposição coletiva "Cargaleiro, Lemos e Vespeira" na Galeria Pórtico, em Lisboa. Em 1956 participa na coletiva "Primeiro Salão dos Artistas de Hoje", na "Sociedade Nacional de Belas Artes" (SNBA), em Lisboa. Nesse mesmo ano realiza painéis de cerâmica para o Jardim Municipal de Almada, e o painel de azulejos para a fachada da nova Igreja de Santo António, em Moscavide. Em 1957, recebe uma bolsa do governo italiano, por intermédio do "Instituto de Alta Cultura", que lhe permite visitar Itália e estudar a arte da cerâmica em Faença, com Giuseppe Liverani, Roma e Florença. Expõe "Cargaleiro: Cerâmicas", com texto de Ruben A., na "Galeria Alvarez", no Porto. É neste ano que fixa residência definitiva em Paris, onde vive atualmente.

Em 1958, torna-se um dos primeiros bolseiros da "Fundação Calouste Gulbenkian", com a realização de estágio na “Faïencerie de Gien”, sob a orientação de Roger Bernard. Participa no "XVI Concorso nazionale della ceramica: Faenza no Museo Internazionale delle Ceramiche in Faenza" (MIC). Numa atitude de altruísmo, que lhe é muito reconhecida, Manuel Cargaleiro oferece peças de cerâmica popular, dois painéis e um vaso de sua autoria para a reconstituição da secção portuguesa do MIC, muito danificado durante a II Guerra Mundial. Manuel Cargaleiro participa na "III Exposição de Artes Plásticas", no Convento dos Capuchos, em Almada. Em 1959, Manuel Cargaleiro adquire um atelier na Rue des Grands-Augustins 19, em Paris, onde passa a residir. Nesse mesmo ano participa numa exposição coletiva, com Camille Bryen, Jean Arp e Max Ernst, na "Galerie Edouard Loeb", em Paris. Participa na exposição "Céramiques Contemporaines", no "Musée des Beaux-Arts" em Ostende, na Bélgica. Expõe "Cerâmica de Manuel Cargaleiro" na "Galeria Diário de Notícias", em Lisboa.

Nas décadas seguintes participa em inúmeras exposições individuais e coletivas, em diversos países, designadamente França, Brasil, Japão, Alemanha, Itália, Angola, Moçambique, Espanha, Venezuela, Suíça e Bélgica. A expressividade lírica da obra de Manuel Cargaleiro motivou a colaboração com poetas, nomeadamente Armand Guibert, Édouard Roditi e Victor Ferreira, que resultaram em inúmeras publicações singulares. Em 1980 destacam-se as exposições na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, no "Centro Cultural Português da Fundação Calouste Gulbenkian", em Paris, e na "Maison de la Culture - André Malraux", em Reims. Manuel Cargaleiro participa no "Primer Encuentro - Taller Creativo de Artistas de América Latina, España y Portugal", que se realizou em Jerusalém - Israel, entre 19 e 28 de março de 1985, promovido pelo "Instituto Central de Relaciones Culturales Israel - Ibeoramérica, España y Portugal". No ano de 1995 executa painéis de azulejos em diversos locais públicos em Portugal, como também para a estação de metro "Champs-Élysées - Clemenceau", em Paris. Em 1999, é-lhe atribuído o primeiro prémio do concurso internacional “Viaggio attraverso la Ceramica”, em Vietri sul Mare, na província de Salerno, colocando-o como grande referência artística em Itália tendo em 2004 inaugurado o "Museo Artistico Industriale di Ceramica Manuel Cargaleiro", que no ano de 2015 se instala em Ravello, como "Fondazione Museo Manuel Cargaleiro".

Em 2016 Manuel Cargaleiro está representado em permanência na "Helene Bailly Gallery", em Paris. Em março expõe "Cerâmica de Manuel Cargaleiro", na "Ap'Arte - Galeria de Arte" no Porto e participa nas coletivas promovidas pela "Helene Bailly Gallery", na "Art Paris Art Fair 2016" e no espaço da galeria situado na "71 rue du Faubourg-Saint-Honoré", Paris. Em maio apresenta a exposição "A Essência da Cor" na Casa de Artes e Cultura do Tejo, no âmbito do 10.º aniversário do equipamento cultural de Vila Velha de Ródão. Em 17 de junho apresentou com o Arquiteto Álvaro Siza Vieira a exposição inaugural "A Essência da Forma", na "Oficina de Artes Manuel Cargaleiro", projeto arquitetónico da autoria do Arquiteto Siza Vieira no Seixal. Em março de 2017 inaugura, no Museu Cargaleiro em Castelo Branco, a exposição comemorativa do seu 90.º aniversário, intitulada "Cargaleiro e Amigos".

 

“Comecei a minha vida de artista como ceramista e sou ceramista mesmo quando faço pintura a óleo. Não consigo imaginar uma coisa sem a outra. As minhas duas práticas, claro que se influenciam mutuamente. Não posso esquecer todos os meus conhecimentos sobre a história da faiança ou sobre a decoração mural quando pinto, assim como não esqueço a minha cultura pictórica quando crio em cerâmica. Está tudo muito ligado, e é isso que constitui a minha especificidade. Eu não copio os meus quadros nos azulejos: pinto diretamente sobre a faiança, sem desenho prévio, como numa tela.”
Manuel Cargaleiro

In LASCAUT, Gilbert (2003). Manuel Cargaleiro: Lisbonne-Paris, 1950-2000: peintures/pinturas. Paris: Éditions Palantines.

 

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Notas biográficas de Manuel Cargaleiro
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Prémios

  • Prémio Sebastião de Almeida atribuído pelo "Secretariado Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo" (SNI), em 1954.
  • Diplome d'Honneur de l'Académie Internationale de la Céramique, no Festival de Cerâmica, em Cannes, no ano de 1955.
  • 1.º prémio do concurso para o revestimento em cerâmica dos edifícios da Cidade Universitária de Lisboa, em 1955 [projeto não concretizado].
  • Troféu Lusíada, atribuído anualmente pelo "Elos Clube", às individualidades que se distinguiram na divulgação de Portugal no estrangeiro, em 1984.
  • 1.º Grande Prémio Internacional Viaggio attraverso la Cerâmica de Vietri sul Mare, em Itália, em 1999.
  • Prémio Projeto Internacional pelos Museus/Fundações Manuel Cargaleiro, em Portugal e na Itália, pela "Associação Portuguesa de Museologia" (APOM), em 2012.
  • Prémio extra concurso Obra de Vida, do projeto "SOS Azulejo", dedicado à salvaguarda e valorização do património azulejar português e coordenado pelo Museu da Polícia Judiciária, atribuído em 2015.

Condecorações

  • Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada de Portugal, agraciado pelo Presidente da República, General Ramalho Eanes, em 30 de junho de 1983.
  • Grau de Officier des Arts et des Lettres, atribuído pelo governo francês, em 1984.
  • Grã-Cruz da Ordem do Mérito, condecorado pelo Presidente da República, Dr. Mário Soares, em 4 de fevereiro de 1989.
  • Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, condecorado pelo Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, em 16 de março de 2017.

 

  • Medalha de Mérito Distrital de Setúbal, atribuída no âmbito das comemorações do Dia de Portugal, em Setúbal, em 1991.
  • Medalha de Ouro da Câmara Municipal de Almada, em 1994.
  • Medalha de Honra do Seixal, em 1999.
  • Medalha de Ouro do Concelho de Vila Velha de Ródão, em 2014.
  • Medalha de Ouro do Concelho de Castelo Branco, em 2017.

 

Em 1974 é editada uma medalha da autoria do escultor Lagoa Henriques para comemoração do 25.º aniversário da atividade artística de Manuel Cargaleiro. Nesse mesmo ano o "Jornal do Fundão" homenageia três artistas da Beira Baixa: Eugénio de Andrade, José Cardoso Pires e Manuel Cargaleiro.

Em 1984, o seu nome foi atribuído à Escola Secundária Manuel Cargaleiro localizada no Fogueteiro, freguesia de Amora, concelho do Seixal.

Em 2004 é instituída a "Fondazione Manuel Cargaleiro" a única que homenageia um artista estrangeiro em Itália, sendo inaugurado o "Museo Artistico Industriale Manuel Cargaleiro", em Vietri sul Mare. Em 2015, a renovada "Fondazione Museo Manuel Cargaleiro" instala-se em Ravello.

Em 2005 é inaugurado o "Museu Cargaleiro" que resulta da parceria entre a Fundação Manuel Cargaleiro e a Câmara Municipal de Castelo Branco, que em 2011 é ampliado para acolher e expor toda a Coleção da Fundação Manuel Cargaleiro.

Em 2007, por ocasião dos 80 anos de Manuel Cargaleiro e dos 60 anos da sua atividade artística, é realizada homenagem ao Mestre Manuel Cargaleiro com inauguração da exposição “Manuel Cargaleiro, Sete propostas para a Arquitectura”, no Museu Nacional do Azulejo, em Lisboa.

Em 2014 é inaugurado o edifício "Oficina de Artes Manuel Cargaleiro", projeto por Álvaro Siza Vieira, na Quinta da Fidalga, Seixal, que em 2016 realiza a exposição inaugural "A Essência da Forma", com obras de Manuel Cargaleiro e Álvaro Siza Vieira.

“Podermos celebrar os 90 anos, quem diria de alguém e em especial os 90 anos de um grande artista português, é suficiente motivo de alegria. Mas celebrarmos Manuel Cargaleiro, é também revisitarmos uma parte importante das nossas memórias, visuais e afectivas. Artista completo, dedicou-se com intensidade à cerâmica, à pintura, ao desenho, à escultura, à gravura e aos têxteis. Por isso, é injusto dizer-se, embora seja frequente, que pensamos acima de tudo, em Mestre Cargaleiro como ceramista, um dos maiores na arte dos azulejos.É injusto porque foi completo em tudo. E até pioneiro, em termos de acesso democrático, diríamos assim, antes mesmo da democracia, às artes plásticas com a aposta que fez no domínio da gravura. Mas o que é facto é que nos lembramos de Cargaleiro ligado à cerâmica, aos azulejos, porque isso estabeleceu entre ele e a imagem das nossas cidades uma relação muito íntima, jardins, igrejas, estações de metro, bancos, inúmeros espaços e edifícios têm a sua marca, uma marca portuguesa dessa arte da qual se tornou um dos expoentes. Dele disse, a sua tão querida Maria Helena Vieira da Silva, que possui a técnica perfeita, a medida certa, as cores raras, traços que fazem de uma obra de Cargaleiro uma forma de celebração. Para muitos ele é um abstracionista, ou pelo menos um abstrata, eu sei que não se considera como tal, abstratizante, mesmo quando tem sido sempre a sua defesa, não é, é um figurativo diferente, construindo na vertical e na horizontal, de modo geométrico, expressivo, muitas vezes em diálogo com artistas que admirou e do qual ou dos quais é tributário como Robert Delaunay, Sónia Delaunay, Ernst e Klee. Eu próprio tenho dificuldade, sendo um admirador há longas décadas, em encontrar uma definição abstracionista, por exemplo, num painel para o qual olho dia sim dia sim, chamado “Jerónimos”, porque lá se encontra a representação, esse grande monumento da portugalidade, mas uma representação geométrica, deplorada, estilizada, construída. Paris foi como que a abertura para a sua segunda pátria, uma pátria onde viveu e tem vivido, repartido pelo mundo e onde deixou o traço da portugalidade também, e por isso lhe agradecemos, mas ao mesmo tempo nunca esqueceu a sua primeira pátria, num empenhamento educativo e cívico, na sua Fundação, no seu Museu, na sua vontade de estar presente na arte portuguesa, de dar a ver e ensinar outros a ver. Já lá vão alguns anos, nos idos de quarenta, Manuel Cargaleiro estreava-se na exibição pública dos seus trabalhos, 70 anos, um pouco mais entretanto decorridos, tornou-se e é há muito um dos nossos artistas fundamentais, imediatamente reconhecível e unanimemente admirado. Por isso o Estado Português não podia deixar de o homenagear galardoando-o devidamente. Manuel Cargaleiro muitos parabéns e muito obrigado” 

Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa – Lisboa, 16 de março de 2016

 

“Manuel Cargaleiro é pintor, é ceramista, ninguém pode duvidar, mas o que talvez nem todos os olhos saibam ver, é a profundidade da sua obra. Do pintor de uma técnica perfeita, de uma medida certa, de cores raras, vai nascendo lentamente, uma obra monumental que a estação da Luz, veio confirmar, que os seus últimos quadros grandes, nos mostram. É a realização de um talento natural que se foi formando pouco a pouco. É o mistério dos grandes corredores Azuis que nos levam em viagem muito longe... É a luz etérea dos painéis brancos. Por tudo isso é natural que nem todos o possam compreender.” 

Vieira da Silva – Lisboa, 28 de janeiro de 1989

 

“Eis-me aqui em frente da arte de Cargaleiro; e deste modo, o primeiro sentimento que me toma é o de gratidão porque ela exista” 

Vergílio Ferreira – In Catálogo "60 anos a celebrar a cor"

 

“Azulejos, talvez! Flores, varandas, cidades – não sei. Mas o que sei é o que o campo magnético da alma humana está aqui, pronto a entrar em movimento, a receber e a produzir mensagens, a traduzir uma maneira nova de conhecimento”

Agustina Bessa Luís  In Catálogo "60 anos a celebrar a cor"

 

“Manuel Cargaleiro é a pessoa  mais incapaz de maldade que conheço. Os seus olhos estão focados para o que há de bom nos outros e na vida. A sua visão do mundo é luminosa. A perversidade pode passar ao lado, engalanada; as suas cores não estão naquela paleta rigorosa. Por isso, cada obra que lhe sai das mãos é para sempre imune ao embaciamento, ou à fractura. Tem a preciosidade e a presença de uma joia, de um esmalte antiquíssimo ou de uma matéria de súbito inventada..."

Álvaro Siza –  In Catálogo "Obra Gravada 1954 | 2009"

 

“(...)Lembro-me bem de uma tarde, em Castelo Branco, em longa conversa de roda livre com o pintor, ele ter regressado aos prazeres da memória e à infância, à emoção do tempo inicial, e me ter dito quanto esse território de afetos ficara preso à sua obra, ao imaginário das cores, às plantas, às vivências, ao conhecimento do mundo. O seu rosto iluminou-se num sorriso largo: - Sim, as cores da Beira estão sempre presentes nos meus olhos. A terra faz parte do coração... “

Fernando Paulouro Neves –  In Catálogo "Vida e Obra", 2012.

 

“Há na obra de Cargaleiro um segredo que se desdobra, com elegância e ingenuidade, e se partilha, em empatia cúmplice, na interioridade do olhar. Para uns, é a luz que paira e se perde para lá dela própria nos meandros da aragem fresca da madrugada ou no calor que acolhe e aconchega. Para outros, a pauta alargada dos sons que se unem e separam, saltitando e enredando a vida em permamente harmonia... “

Maria da Glória Garcia –  In Catálogo "Obra Gravada 1954 | 2009"

 

“Quando o jovem Manuel Cargaleiro – tinha então 27 anos – chega a Paris em 1954, a prestigiada “Ecole de Paris”. (....) . Manuel vai  regularmente à Galerie Edouard Loeb assim como às animadas e festivas soirées, para as quais Edouard convida os seus amigos e artistas. Sociável, agradável, naturalmente afetuoso ele está completamente à vontade.(...)

 Na galeria, Cargaleiro conhece Nathalie Gontcharova e o seu marido Larionov, “inventores” do rayonnisme. A pintura deles bem como a de Bissère, influenciaram-no decisivamente. A sua obra pictórica floresce. Mais tarde, dirá “nasci como pintor em Paris”. E de facto ele pertence por mérito à “Ecole de Paris”.

Albert Loeb –  In Catálogo "Vida e Obra", 2012.

 

Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir – digamos – de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.

O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos factos e punham-se por uma ordem, a saber:

1º - o peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor;

2º - o peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.

Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existe apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisasa como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo.

Por isso é que Cargaleiro é exemplar e fascinante.”

Herberto Hélder –  In Catálogo "Manuel Cargaleiro, Galeria de Arte Dinastia, 4 a 23 de Março de 1968".

 

A certificação de obras do artista Manuel Cargaleiro é realizada através da Fundação Manuel Cargaleiro, na qual o respetivo artista é Fundador e Presidente.

Por favor aceda aos documentos infra para mais informação e respetiva solicitação. Em caso de dúvida por favor entre em contacto com a Fundação Manuel Cargaleiro.

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Cargaleiro _2001_Kenton Thatcher

Manuel Cargaleiro. Foto de Kenton Thatcher, Lisboa, 2001.